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ATRATIVIDADE BRASILEIRA PARA INVESTIMENTO ESTRANGEIRO PRODUTIVO

Em março de 2021 apresentamos, neste conceituado veículo de comunicação, um texto relacionado com o comportamento do fluxo de capitais estrangeiros no Brasil em 2021 (disponível em https://cobizz.com.br/2022/04/29/novo-marco-legal-no-mercado-de-cambio-brasileiro/). No texto ficou evidenciado que os capitais especulativos não têm aversão aos riscos existentes no Brasil, enquanto os capitais produtivos estão se afastando gradativamente (dados obtidos em BACEN, 2022, indicam que nos 12 meses encerrados em fevereiro/2020 o volume de investimentos produtivos representou 3,7% do PIB; em fevereiro/2021 registrou 3,2%; em fevereiro/2022 caiu para 3,1%).

Em live de 26/04/2022, com clareza, o Prof. Roberto Kerr nos mostrou o crescimento das aplicações de capitais estrangeiros no mercado financeiro brasileiro em 2022 e nos abriu a oportunidade de, passado um ano do nosso texto, voltarmos a analisar o fluxo de Investimento Estrangeiro Direto – IED[1] neste período inicial do ano de 2022.

Entretanto, para não sermos repetitivos, focaremos esta análise na visão do investidor estrangeiro sob o ponto de vista da atratividade necessária para despertar o seu interesse neste tipo de investimento.

Inicialmente abordaremos o Índice de Confiança para Investimento Direto Estrangeiro, elaborado pela Kearney (atual denominação da ATKearney and Company), que classifica os vinte e cinco principais destinos dos investimentos estrangeiros produtivos em todo o mundo.

 

DESTINO DO IED E CLASSIFICAÇÃO DOS PAÍSES RECEPTORES
EUROPA AMÉRICA DO NORTE AMÉRICA LATINA EXTREMO ORIENTE ORIENTE MÉDIO OCEANIA
Alemanha – 2º EUA – 1º Brasil – 22º Japão – 4º Em. Árabes – 14º Austrália – 11º
Reino Unido – 5º Canadá – 3º   China* – 10º Catar – 24º Nova Zelândia – 12º
França – 6º     Coreia do Sul – 16º    
Itália – 7º     Cingapura – 18º    
Espanha – 8º          
Suíça – 9º          
Suécia – 13º          
Finlândia – 15º          
Bélgica – 17º          
Portugal – 19º          
Áustria – 20º          
Dinamarca – 21º          
Noruega – 23º          
Irlanda – 25º          

*Inclui Hong Kong

 

Figura 1 – Principais Destinos de Investimento Direto Estrangeiro no Mundo

 

Fonte: FLYNN, 2022. Disponível em: https://www.bloomberglinea.com/br-pt/brasil-sobe-em-ranking-de-principais-destinos-de-investimento-estrangeiro/. Elaborada e adaptada pelo Autor.

A Figura 1 nos mostra a importante situação do Brasil, único país da América Latina classificado como melhor lugar para estrangeiros efetuarem investimentos. Além dessa privilegiada situação apontada pelo índice, uma significativa evolução deve ser considerada: em 2021 o Brasil ocupava a 24ª posição (conforme citado pela fonte da figura 1) e em 2022 evoluiu duas posições. No período crítico como o transcorrido nos últimos dois anos (a Covid-19 causou perdas consideráveis em praticamente todos os países), ter evoluído duas posições nesse concorrido “ranking” demonstra que o Brasil possui atrativos que interessam aos grandes investidores.

Diante dessa constatação, surge a indagação sobre quais seriam os atributos que ajudariam os investidores a melhor escolher o destino de seus investimentos no exterior. Para satisfazer essa indagação, a figura 2 foi organizada para mostrar, sob o ponto de vista dos investidores estrangeiros, os pontos fortes e os pontos fracos que o Brasil possui para atrair os IEDs.

 

SITUAÇÃO CARACTERÍSTICAS
PRINCIPAIS PONTOS FORTES ·      Recursos naturais abundantes

·      Mercado interno com boa capacidade de consumo

·      Localização estratégica

·      Economia diversificada, com significativa participação no comércio internacional

PRINCIPAIS PONTOS FRACOS ·      Legislação trabalhista onerosa

·      Carga tributária elevada e direitos aduaneiros caros

·      Infraestrutura carente de desenvolvimento

·      Restrições ao IED em diversos setores (por exemplo: energia nuclear; serviços de correios e telégrafos; indústria aeroespacial)

·      Tensões políticas e sociais constantes

·      Carência de mão de obra qualificada

·      Sistema de ensino público fraco

 

Figura 2 – Principais Pontos Fortes e Fracos para Atratividade de Investimentos Estrangeiros no Brasil

 

Fonte: Banco Santander S/A, 2022. Disponível em: https://santandertrade.com/pt/portal/internacionalize-se/brasil/fluxos-de-ied-2. Elaborada e adaptada pelo Autor.

 

A observação de destaque na Figura 2 é o Brasil possuir menos pontos fortes do que fracos para atrair investimentos estrangeiros produtivos. Todavia, os pontos fortes possuem uma magnitude suficiente para atrair elevados montantes e de superar os pontos fracos menos relevantes. Assim, as nossas autoridades (em especial os membros dos poderes legislativo e judiciário) devem se atentar para a importância que os IEDs têm para o país e direcionar as suas ações/decisões para ampliarmos os pontos fortes e minimizarmos os nossos pontos fracos. Essa maior atenção de nossas autoridades, portanto, ampliará a nossa atratividade, contribuindo significativamente para a melhoria do ambiente de negócios no Brasil, elevando o volume de ingresso de IED, mantendo esses investimentos por prazos maiores, oferecendo maior segurança ao investidor e despertando novas oportunidades de investimento.

Destaque-se que o Brasil é muito carente no desenvolvimento tecnológico e o IED, ao invés de ingressar sobre a forma de capital financeiro, pode ser investido com a transferência de tecnologias (que é uma outra forma de IED) a serem aplicadas em diversas atividades econômicas, compensando essa nossa carência e gerando mais empregos, renda e bem-estar social.

Também é importante se destacar a aversão de muitos brasileiros à participação de estrangeiros nas principais atividades econômicas do país. Essa realidade, além de xenófoba, é um atraso em país carente de desenvolvimento e que não condiz com a capacidade do Brasil para se desenvolver plenamente.

Diante dessas constatações, ainda é importante observar que vivemos no Brasil, com as eleições de outubro próximo, um momento de definição para o nosso futuro e isso tudo deve ser considerado para a decisão de escolha do voto de cada brasileiro. Assim esperamos!

 

REFERÊNCIAS

 

BANCO CENTRAL DO BRASIL – BACEN. Estatísticas do setor externo – Nota para a imprensa – 29/04/2022. Brasília, 2022. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/estatisticas/estatisticassetorexterno.

 

BANCO SANTANDER S/A. Brasil: Fluxos de IDE, relatório atualizado em março de 2022. Disponível em: https://santandertrade.com/pt/portal/internacionalize-se/brasil/fluxos-de-ied-2.

 

FLYNN, M. Brasil é o 22º melhor lugar para se investir entre 25 países. BloombergLínea, abril/2022. Disponível em: https://www.bloomberglinea.com/br-pt/brasil-sobe-em-ranking-de-principais-destinos-de-investimento-estrangeiro/.

 

 

São Paulo, 10/05/2022

 

Prof. Dr. Francisco Américo Cassano

Doutor em Ciências Sociais – concentração em Relações Internacionais, Professor e Pesquisador dos temas Internacionalização de Empresas e Relações Econômicas Internacionais.

[1] A expressão representativa do investimento estrangeiro produtivo possui formas distintas: Investimento Estrangeiro Direto – IED; Investimento Direto Estrangeiro – IDE; Investimento Direto no País – IDP; porém, todas têm o mesmo significado. Para manter a nossa linguagem uniforme, continuaremos utilizando a mesma denominação dos nossos estudos que é Investimento Estrangeiro Direto – IED.

 

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