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[NOVO COLUNISTA] BREXIT: REFLEXOS NO COMÉRCIO EXTERIOR

Em junho de 2016 apresentei uma crônica que apontava os reflexos econômicos que poderiam trazer consequências desfavoráveis a todos os países envolvidos nesse episódio de separação. Neste momento, a alguns dias do prazo final para a separação (29/03/2019), a Primeira Ministra Theresa May atua junto ao Parlamento britânico no sentido de obter um prazo maior para ajustar as novas condições do Brexit (a serem estabelecidas pelo Parlamento em 27/02/19) junto à União Europeia – UE.

Muito embora esteja contida uma cláusula de salvaguarda no acordo – denominada backstop e apenas para proteção e garantia de normas relacionadas com a Irlanda e a Irlanda do Norte –, os reflexos no comércio exterior do Reino Unido – RU e da UE não têm merecido a atenção que deveriam receber em função das significativas repercussões que advirão dessa separação.

 

Tabela 1 – Exportações e Importações Anuais do Reino Unido em relação à União Europeia

ANO EXPORTAÇÕES ANUAIS DE BENS DO RU –

€ bilhões (A)

EXPORTAÇÕES ANUAIS DE BENS DO RU P/ UE –

€ bilhões (B)

B : A

(%)

IMPORTAÇÕES ANUAIS DE BENS DO RU –

€ bilhões (C)

IMPORTAÇÕES ANUAIS DE BENS DO RU ORIGEM UE –

€ bilhões (D)

D : C

(%)

2008 321,03 142,50 44,39 447,23 217,53 48,64
2009 254,70 114,61 45,00 372,58 188,27 50,53
2010 313,77 148,28 47,25 445,29 227,07 50,99
2011 363,92 181,41 49,85 487,91 252,50 51,75
2012 367,99 183,13 49,76 541,11 283,53 52,40
2013 407,06 229,92 56,48 496,98 239,48 48,19
2014 380,28 198,22 52,12 519,73 244,33 47,01
2015 414,74 230,49 55,57 564,55 261,72 46,36
2016 370,02 194,46 52,55 574,91 284,35 49,56
2017 390,82 204,43 52,30 569,60 274,18 48,14

Fonte: Eurostat, dados disponíveis em https://ec.europa.eu/eurostat/web/international-trade-in-goods/data/database. Elaborada pelo Autor.

 

A tabela 1 apresenta o comportamento das exportações e importações de bens do RU, de 2008 a 2017, em relação às exportações e importações totais anuais de bens para/da EU, podendo-se observar que, pela representatividade dos dados, haverá perdas consideráveis na balança comercial de ambos os lados.

No caso do RU, pouco mais da metade de suas exportações (a partir de 2013) e pouco menos da metade de suas importações (também desde 2013) se destinam para a UE e se originam da UE, respectivamente. Portanto, com o Brexit e o reestabelecimento das tarifas aduaneiras de lado a lado, os produtos originários do RU tenderão a ficar mais caros para os importadores comunitários europeus e, consequentemente, deverão diminuir as exportações com reflexos nos seus volumes de produção e no nível de emprego. Simultaneamente, as importações do RU provenientes da UE ficarão mais caras e, com isso, deverão provocar sensível impacto nos níveis de preços internos do RU (além de provável novo impacto nos níveis de produção e de emprego).

Para a UE os reflexos são similares ao do RU, principalmente no que se refere à participação das importações do RU no volume total das importações da UE. A tabela 2, a seguir, ilustra e confirma o impacto que a diminuição das importações do RU originárias da UE poderá causar nos níveis de produção, de emprego e de preços da UE, face ao retorno das alíquotas de importação e provável aumento dos preços finais dos produtos originários do RU. Tais afirmações, em caráter condicional, baseiam-se no fato do RU ser o segundo fornecedor para a UE no comércio de bens intrabloco e a impossibilidade de sua substituição imediata face às características dos produtos.

 

Tabela 2 – Principais Países Importadores no Comércio de Bens Intrabloco (União Europeia)

 

ANO % IMP. ALEMANHA SOBRE TOTAL IMP. UE – BENS INTRABLOCO % IMP. FRANÇA SOBRE TOTAL IMP. UE – BENS INTRABLOCO % IMP. REINO UNIDO SOBRE TOTAL IMP. UE – BENS INTRABLOCO % IMP. ITALIA SOBRE TOTAL IMP. UE – BENS INTRABLOCO
2008 18,4 9,8 13,7 10,8
2009 19,0 10,0 15,2 10,1
2010 19,1 9,5 14,8 10,7
2011 19,0 9,8 14,6 10,6
2012 18,2 9,6 15,8 9,9
2013 18,6 9,8 14,2 9,5
2014 18,6 9,6 14,5 9,1
2015 18,9 9,3 15,2 8,9
2016 18,8 9,0 16,6 8,4
2017 18,7 9,0 14,8 8,6

 

Fonte: Eurostat, dados disponíveis em https://ec.europa.eu/eurostat/web/international-trade-in-goods/data/database. Elaborada pelo Autor.

 

Assim, mesmo sem a utilização dos recursos da análise estatística, fica evidenciada a importância do comércio exterior tanto para a UE e o RU, carecendo de maior consideração econômica a decisão popular pelo Brexit de forma geral e o acordo de separação entre as partes de forma específica. Os sinais para isso, entretanto, indicam que somente após a constatação desses reflexos no comércio exterior de ambos os lados é que medidas/soluções deverão ser pensadas e adotadas.


Francisco Cassano

Francisco Américo Cassano é doutor em Ciências Sociais e Relações Internacionais, professor pesquisador de Relações e Negócios Internacionais na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

 

 

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