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O Glamour da Parte Rasa da Piscina

Quando mais jovem, tive a oportunidade de aprender a nadar em minha escola. Sem dúvida, um privilégio. Na época, confesso, tinha dias que realmente não existia, em mim, a menor vontade de ir para a “aula de natação”; uma vez que era ao ar livre, sem água aquecida e, às vezes, estava chovendo.

Acredito que, assim como eu, outras pessoas tiveram experiências parecidas. Como muitos, passei por essa fase e hoje posso me lembrar com algum carinho dessa experiência – mesmo com alguns momentos desagradáveis -, que me permitiram desenvolver alguma habilidade para nadar.

Com o passar do tempo e dos anos de natação, fui me interessando em observar determinadas dinâmicas que aconteciam nas aulas. Duas delas em particular; a quantidade – muito provavelmente – não saudável de cloro que era colocado na piscina para mantê-la “limpa…” e a sensação desagradável de ter aula bem cedo de manhã quando a água estava ainda mais fria.

Em dias em que o professor grita: “está mais quente dentro da água do que lado de fora”, assim como eu, outros alunos também preferiam ficar na parte mais rasa da piscina, uma vez que, por mais fria que a água estivesse, ainda era menos fria do que a parte mais funda.

Do que diz respeito ao cloro, posso dizer que depois muitas versões esverdeadas do meu cabelo, posso dizer que sobrevivi. Talvez tenha adquirido algum tipo de resistência. Bom, melhor pensar assim…

Já em relação a segunda dinâmica da piscina: a de ficar no lado mais raso é algo que ainda hoje me chama atenção. Porém, não mais pelos mesmos motivos, mas ainda é algo, em certo grau, intrigante para mim.

Você pode estar se perguntando onde estou indo com essa história…

Entre as muitas aulas de natação, percebi que o lado raso da piscina é onde as pessoas tendem a ficar, não somente por causa da questão do frio, mas porque é ali que é possível “estar” com as outras pessoas. É o momento onde os alunos dão uma paradinha para conversar e comentar como a água está gelada.

Contudo, comecei a perceber que a dinâmica do lado raso da piscina tem muitos pontos de semelhança com a nossa caminhada como seres humanos e, também sobre empreender uma ideia, um negócio ou uma empresa.

Que semelhanças são essas?

Destacaria três:

Ficar na parte rasa nos dá a sensação de “terra firme”:

Mesmo já sabendo nadar e me sentido confiante para ir de um lado para o outro na piscina, sempre esteve claro para mim que quando estou com os pés “colados” no chão tenho uma percepção de segurança maior. Talvez, seja algo inconsciente, não sei.

Mesmo sabendo que posso nadar e boiar se for necessário, a pergunta que sempre me vem à cabeça é “por quanto tempo?”, “se só existisse a parte funda da piscina e você não conseguisse colocar os pés no chão sem estar totalmente submerso, por quanto tempo você aguentaria ficar nadando ou boiando?”

A ideia não é levar esse texto para um lugar esquisito, mas acredito ser válido levantar esse ponto quando estamos fazendo um paralelo com a iniciativa de empreender; onde em muitas situações é nesse contexto que nos encontramos: uma piscina que só possui a área funda.

Quando penso nesse cenário (que por si só pode ser potencialmente complicado em uma piscina), ele se torna muito mais complexo se o transpormos para o mar aberto.

Não tenha dúvida, quando estamos falando sobre ter um negócio a “arena” não é uma piscina, mas sim o mar aberto. E se formos bem honestos, aqui no Brasil é quase sempre mar com ressaca…

Com isso quero dizer que escolher entrar no mar em dias de ressaca não deve ser entendido como algo trivial. Isso pode parecer óbvio quando faço essa comparação, mas vejo uma certa “glamourização” que persiste no mundo do empreendedorismo.

O mar “aceita” que qualquer tipo de pessoa tenha acesso a ele, mas somente permite que saiam “inteiros” aqueles que estão preparados (tecnicamente e emocionalmente) e o respeitam profundamente. O mundo dos negócios funciona da mesma forma: em dias calmos dá até para curtir (e eles existem!), mas você precisa estar disposto a se preparar – constantemente – para os dias de tempestade.

 

É na parte rasa que podemos interagir com as outras pessoas:

Somos seres sociais. Alguns mais do que outros, mas de maneira geral, dificilmente conseguiríamos viver isolados para sempre em uma ilha remota.

Escolher empreender não é a mesma coisa que frequentar eventos de empreendedorismo – onde todos se falam, tomam cerveja e comem em clima de descontraído. Empreender, como você já deve sentir na pele, é ter pequenas brechas de otimismos quando micro vitórias são conquistas entre um calafrio e um frio na espinha.

Em momentos dificuldades não é incomum que busquemos em outras pessoas algum tipo de conforto – seja através de uma palavra, um ombro ou simplesmente um silêncio não solitário.

A situação tende a ficar mais complexa, quando estamos, seja no lado fundo da piscina e/ou em mar aberto, e olhamos para o lado e não vemos ninguém perto, nenhuma boia, borda, prancha, nada…

A sensação de medo que isso gera é forte e muitas vezes incapacitante. Conforme vamos nos afastando do lado raso da piscina ou da areia na praia e seguimos em direção a parte mais funda percebemos que estamos nos afastando das pessoas. Nesse momento, vai crescendo dentro da gente a sensação de medo que no fundo vem mesmo da dúvida se estamos tomando a decisão certa ao permanecermos nessa direção.

Porém, quando estamos nessa situação a nossa “rede social” de segurança tende a perder força. Nossos amigos, que antes estavam ao nosso lado, agora são somente pontinhos no horizonte. Esse é um divisor de águas na vida de um empreendedor. A hora em que ele – realmente – entende que está sozinho; compreende o que é estar sozinho sob a perspectiva social. E que ele precisa para “conseguir” se tornar auto dependente. Não no sentido de abrir mão do convívio social ou que ele passe a acreditar que não precise de ninguém, mas que ele internalize que a sua caminhada – seja ela a cinco metros da areia ou 20 quilômetros da costa, será acompanhada por muito mais silêncio e ausências de pontos claros de referência do que qualquer outra coisa.

O silêncio de nossa trajetória não está no nosso afastamento ou distanciamento das pessoas, ele acontece, pois muitas das nossas questões, angústias e incertezas não são compartilhadas nem percebidas da mesma maneira pelas pessoas mais próximas a nós, isso inclui família e amigos.

Com o passar do tempo vejo que o sentimento de solidão não vem realmente da falta de convívio, mas sim da constante necessidade de sentir que estamos caminhando na direção certa da melhor forma possível.

 

É preciso ir fundo para descobrirmos novas perspectivas.

É preciso ir fundo para descobrirmos novas perspectivas.

 

Não existem só situações potencialmente complicadas e perigosas quando estamos falando do lado mais fundo da piscina ou conforme estamos nos distanciando da areia na praia.

Quem faz natação sabe que o lado fundo da piscina é quase um universo paralelo quando resolvemos descer para conhecê-lo melhor. É possível ter a sensação de locomoção em múltiplas direções (para cima, para baixo, para um lado, para o outro, diagonal, etc.). Se você parar para pensar é uma experiência bem interessante. Se estivermos falando do mar então, quando mergulhamos, passamos não só a conhecer uma outra perspectiva, mas um mundo inteiro diferente e extremamente rico – em todas as dimensões.

Contudo, para explorar e conhecer toda a sua potencialidade, é preciso fazer a escolha de ir para o lado fundo e mergulhar – abrindo mão dos “pés colados no chão”.

Essa atitude é a mesma quando estamos falando de empreender um negócio, quando estamos no lado raso dificilmente iremos compreender as reais possibilidades, pois estamos navegando na superfície das potencialidades. Não há “modelagem de negócio”, reuniões de “brainstorming” que dê conta, pois se conhece muito pouco sobre a realidade que está diante de nós e – principalmente – de nós mesmos.

Enquanto a escolha de sair do raso não for feita, não poderemos aproveitar de forma plena realmente que somos e o quanto podemos ser ainda mais – seja o que for.

Sei que esse foi um texto mais longo para os parâmetros da nossa realidade onde que quase tudo precisa estar em formato de listas “mastigadas” (preferencialmente, com menos de dez itens…). Porém, espero que essas ideias possam te ajudar a se sentir mais seguro para experimentar frequentar o lado mais fundo da piscina – que pode até não ser tão glamouroso quanto o lado raso, mas ele compensa quando entendemos as riquezas que podem estar fora do campo da visão, mas ao alcance da coragem.

Leia outro texto de Gabriel Machado – clique aqui

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Gabriel Machado – Strategic advisor, escritor e fundador da DODAKHAM.

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