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Por que é tão difícil empreender no Brasil?

Estado Vs. Indivíduo: A Dura Batalha Pela Liberdade do Espírito Empreendedor

Por que é tão difícil empreender no Brasil?

Um estado que ofusca seus homens, a fim de que sejam dóceis instrumentos em suas mãos – até mesmo para fins nobres – irá descobrir que, com pequenos homens, nada de grande pode ser realizado” (John Stuart Mill).

Os 518 anos de história do Brasil podem ser resumidos em duas intrigantes declarações.

A primeira, feita pelo saudoso economista paranaense Prof. Belmiro Valverde em seu livro “O Brasil não é para amadores: Estado, Governo e Burocracia na terra do jeitinho” (Travessa dos Editores, 3ª edição, 2003): “Não estar totalmente confuso no Brasil significa estar mal informado.”

A segunda, do também já falecido brasileiro Alberto Guerreiro Ramos, sociólogo na University of Southern California: “O Brasil é como uma personagem que se preparou para comparecer a um banquete, mas, contra seu desejo, tendo de vencer uma série de obstáculos no roteiro que seguiu, não chegou a tempo de tomar a última condução que o levaria ao local da função. E, assim, ainda com vestes de grande pompa, dá-se conta de que tem de trocar de roupa, a fim de ser tomado a sério pelos circunstantes” (O Modelo Econômico Brasileiro: Uma apreciação à luz da teoria da delimitação dos sistemas sociais. Cadernos do Curso de Pós-Graduação em Administração. UFSC, 1980).

Pesquisadores sérios no Brasil, nativos e estrangeiros, parecem sentir-se como alguém que possui inúmeros relógios, cada um marcando uma hora diferente, sem terem a menor ideia de qual indica a hora certa, ou até mesmo se um dos inúmeros relógios realmente tem a hora correta.

Um dos caminhos mais confiáveis para se começar a compreender o Brasil é retornar, de forma desencantada e profunda, às nossas raízes históricas. Bem lá na origem do país está um relevante ponto comum entre historiadores, sociólogos, antropólogos, cientistas políticos, filósofos, economistas, entre outros: a admiração absolutamente reverencial da nação pelo poder e, consequentemente, pelo Estado.

Diferentemente, por exemplo, dos colonizadores dos Estados Unidos da América, o interesse da coroa portuguesa em 1500 era bastante direto e assertivo: a nova colônia deveria ser vista apenas como mais um negócio real a ser explorado, não um território a ser transformado em nação. Alguns dos exploradores que saquearam a nova terra e enriqueceram sobremaneira em Portugal, diz a História, jamais colocaram os pés na terra com palmeiras onde cantavam os sabiás. Seu único foco era pilhar o país, aumentar suas fortunas e prontamente investi-las em países europeus.

Assim, como conclui o Prof. Valverde, o “provisório”, o “imediatismo” e a “falta de interesse pelo longo-prazo da nação”, entre outros, foram esculpidos em carrara no ethos nacional. O sentido de “cidadania” já nasceu morto no Brasil, já que eram considerados “cidadãos” na nova colônia – algo que persiste até os dias atuais (exceto em anos eleitorais!) – somente as corruptas elites portuguesas. Para aplicar o conceito político hobbesiano, o país real sempre foi o ditado pelo monstruoso Leviatã, sem se preocupar com qualquer reação social à altura que o fizesse retroceder em sua ânsia por manter o poder a qualquer custo.

Com este pano de fundo, visando lidar com o tema proposto, cabe-nos perguntar: que tipo de indivíduo é gerado em um país assim?

Em primeiro lugar, historicamente, um Estado monstruoso tende a diminuir o caráter dos indivíduos (por “caráter” aqui entenda-se a responsabilidade de uma pessoa por cuidar de si própria). Há profícuos trabalhos acadêmicos apontando claras e abundantes correlações entre o desenvolvimento do caráter individual e o desenvolvimento nacional. Em outras palavras, as pessoas que são capazes ou livres para cuidar de si mesmas geralmente são mais bem-sucedidas do que as que dependem do cuidado de terceiros e fazem muito pouco ou nada para cuidar de si próprias. E tanto uma quanto a outra impactam diretamente a nação como um todo.

Em segundo lugar, quanto mais as pessoas confiam em terceiros – e aqui entra também o Estado – mais elas desenvolvem o nocivo senso de codependência, ou seja, a percepção de que “pertencem” a alguém. Quanto mais o indivíduo aumenta essa codependência, menos ele tenderá a trabalhar para conquistar o que quer que seja. Ao mesmo tempo, porém, emerge com força o senso de ingratidão. A lógica é simples: quanto mais alguém espera algo de outra pessoa, menor é a tendência de sentir-se grato pelo que já recebeu. Há sempre o sentido de “mais, mais”. O que gera a terceira fase do ciclo: agressividade e violência. Quando as pessoas não recebem o que lhe prometeram ou o que esperavam, elas tendem a ficar bastante bravas, correto?

Um terceiro ponto importantíssimo. Quanto mais dependem de outros, mais as pessoas desenvolvem um certo desdém pelo trabalho. E um dos devastadores efeitos disso é a nossa tenebrosa Previdência Social. Os indivíduos querem trabalhar cada vez menos e, ao mesmo tempo, receber aposentadorias cada vez mais altas (isso é a rotina do serviço público, não apenas no Brasil).

O último tema que quero abordar neste curto artigo é o fato já comprovado de que quanto mais dependentes são os indivíduos, especialmente do Estado, mais egoístas eles serão. O Estado Leviatã não apenas doutrina as pessoas a deixarem seus cuidados em suas mãos: ele as ensina a tomar o que é dos outros! Nos EUA, por exemplo, o dramático limite imposto pela Constituição sobre o governo federal é a razão primária por trás do espírito mais generoso e altruísta de indivíduos e entidades civis. Juntos, essas duas categorias investem em projetos assistenciais e voluntários per capita mais do que todos os países europeus juntos!

Conclusão: quanto maior o Estado, maior o número de pessoas enraivecidas, ingratas, preguiçosas, mimadas e centradas em seus próprios umbigos um país terá!

Trocando em miúdos: para os que querem se SENTIR bem, um grande governo é uma ótima pedida! Aos que querem FAZER o bem, só lhes resta uma opção: financiar compulsoriamente os primeiros. Traduzindo: bem-vindo à escravidão! O escritor canadense Mark Steyn é extremamente preciso e categórico em sua análise: “O maior crime do Grande Governo não é o desperdício de dinheiro: é o desperdício de pessoas.” E tal fato produz impacto direto no espírito empreendedor de qualquer nação da terra.

Porém, parece haver luz no fim do túnel no Brasil. Há um movimento constante e crescente de corações e mentes comprometidos com a emergência – mesmo que a fórceps – de uma mentalidade social centrada na autonomia do indivíduo. No ano em que A Riqueza das Nações, de Adam Smith, o clássico que deu nome ao conceito econômico que alterou o destino do mundo, completa seus 242 anos (no último 9 de março), esperemos que mais e mais mãos invisíveis sejam libertas das pesadas correntes coletivistas que sempre reduzem o ser humano e sua inventividade ao nível da mediocridade.

Empreendedores do mundo brasileiro: UNI-VOS!

⇒ Clique aqui e ouça o BZCast (podcast) que Eliel Rosa gravou falando sobre como sermos mais fortes para termos um coletivo mais forte.

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Eliel Rosa, Sociólogo e Especialista em Políticas Públicas no Texas, EUA


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